A Chape é gigante

Esse texto é uma respostagem levemente editada de uma newsletter minha que saiu dia 30/11/16.

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O Flamengo e os futuros campeões que me perdoem, mas a Sul-Americana acabou em 2016.

ces me perdoa a incoerência de uma pessoa que tá chorando desde às 9 da manhã (agora são 21:28), e se eu passo miliano sem escrever alguma coisa aqui, e quando venho escrever é sobre a coisa mais baixo astral impossível: gente morrendo. eu tinha toda uma newsletter planejada pra falar sobre logan huntzberger mas é.

o avião da chape caiu né.

eu não vou ser mesquinha e dizer que acompanho a chape há muito tempo, porque isso seria uma mentira deslavadíssima, mas eu não sei nem se a própria chape se acompanha há tanto tempo assim, afinal de contas foi só nos últimos 6 anos que ela deu sinais de melhora. foi da série d do campeonato brasileiro pra série a em uma campanha histórica e exemplo de gestão de clube, mas foi há uns 3 anos que a chape começou mesmo a conquistar o resto do país. isso porque a gente adora uma rivalidade, né? então quando um grande perdia da chape, a gente vibrava –ou chorava, porque talvez o grande fosse a gente.

o dia de hoje me traz duas questões. a primeira, é claro, é: o que significa ser um time grande? quem é que determina o que é um time grande? isso é ridículo. eu assisti a live do desimpedidos (de quem eu vou tirar a maioria dos quotes daqui da news) chorando junto com o fred, e o bolívia fala que o futebol tá voltando a ficar frio e distante da gente, e isso faz com que a nossa percepção de time grande se dê apenas por dinheiro e quem contrata mais. “o sonho de um futebol mais humano já tava ali pra quem quisesse sonhar.”

a segunda pergunta e mais pungente, que bateu na minha cabeça o dia inteiro, foi traduzida em uma frase que eu li mais cedo no twitter: quando nosso time perde a gente chora, mas o que a gente faz quando perde nosso time? e isso é foda, amigos. é foda mesmo.

foi no twitter também que eu vi mais cedo “é como se tivessem morrido amigos”, e por mais idiota que possa parecer, é assim que eu me sinto. qualquer pessoa que me conhece e que lê meu twitter sabe que futebol é minha vida. eu escrevo em lugares suficientes pra me considerar uma semi-profissional, e posso dizer que esse é um dos dias mais tristes da minha carreira, quando ela mal começou a dar seus primeiros passos. a gente acompanhou e comentou sobre a chape esse ano na sul-americana, eu assisti ao jogo contra o san lorenzo, eu assisti o jogo contra o palmeiras domingo. e então não tem mais. então a gente tá comemorando 3 jogadores que AINDA BEM sobreviveram de todo um elenco brilhante, tendo danilo tirado grotescamente das mãos da nossa esperança, enquanto o que sobrou da chapecoense tenta desesperadamente lidar com o inimaginável.

agora a série a do campeonato brasileiro tem um 9º lugar fantasma, e perceber esse vazio é uma porrada na cara. (eu acabei de passar 9 minutos relendo essa frase e pensando no que escrever em seguida.) galvão bueno disse que tinha perdido até a vontade de narrar qualquer jogo até o final do ano, e honestamente, a gente também perdeu clima de assistir. pessoalmente não sei quando vou conseguir assistir outro jogo sem lacrimejar um pouquinho.

“além dos acessos desde a série d até a histórica classificação pra final da sul-americana, a chape e a sua vocação de arrebanhar fãs mostrou na prática uma coisa que todo torcedor sabe e sente lá no fundo mas que muitas vezes essa loucura que a gente vive hoje não deixa sair, que é aquela frase: ‘não é só futebol.’”

o pior na verdade é pensar em quantas vezes eu ouvi que futebol é pão e circo do povo, mostrando claramente quem diz isso tá muito longe do futebol pra saber que cada vez mais ele tá distante do povo, e que é preciso uma tragédia como essa para sacudir a gente e lembrar que o que é realmente importante é “o futebol como ferramenta de transformação social.” é o futebol como aquilo que já me fez ansiar muitas vezes pelo dia seguinte. é o futebol como aquilo que faz o amante de futebol saber que vai poder sentar e assistir seu time do coração. “e tragédias como a de hoje nos fazem repensar absolutamente tudo.”

“o que a gente faz aqui, e o que a gente deixa nesse mundo, é o que é feito com amor. foi isso que a chape fez, foi isso que a chape deixou.”

e como ainda bem que nem tudo nessa vida é baixo astral, e “a gente tem que aproveitar o futebol pra coisas bonitas,” hoje também foi dia que turino e manchester united relembraram suas próprias tragédias e se uniram a chape num único choro dos que sabem como é se levantar de uma coisa terrível como essa. falando em se levantar, eu compartilhei no meu facebook uma lista dos times que já disponibilizaram todo o tipo de ajuda à chape pra temporada que vem até que o time se recomponha. como santista, é um orgulho ver meu time nessa lista, e é com um nó gigantesco que eu lamento especialmente a morte de thiego, que ia brilhar com a gente ano que vem e que agora vai ficar mandando boas energias, onde quer que esteja. capita, cuida bem dos nossos campeões, tá?

não tem problema se você não acredita num depois, mas essa noite eu vou dormir tranquila pensando no grande clássico que deve estar rolando entre a chape, o united e o torino, naquele campo que a gente ainda não compreende. gigantes futebol clube.

porque o 9º lugar na tabela do campeonato brasileiro pode representar um vazio, mas ele só tá assim porque a chape ficou tão grande que não cabe.

a chape é gigante.

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Follman, Neto e Ruschel no Camp Nou, dia 07/08/17, em jogo beneficente contra o Barcelona.

texto original: https://tinyletter.com/dudsvsbaixoastral/letters/contra-o-baixo-astral-11-a-chape-gigante

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27 anos. Brasileira. Criadora de conteúdo, ilustradora e blogueira de comportamento e de esporte. http://linktr.ee/ddsaldanha

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