Como ser fangirl basicamente me salvou

BTS, TXT e Blackpink: alguns dos meus "grupos-conforto" de 2020. (Ilustração autoral)

Eu nunca vou esquecer uma entrevista do Harry Styles para a Rolling Stone lá em 2017 onde ele fala sobre fangirls. Naquele contexto, ele falava sobre sua música solo ser “mais velha” e se isso seria um problema para suas fãs “mais novas”, já que a mídia entende fangirls necessariamente como garotas adolescentes: “você quer me dizer que elas não estão falando sério?

Por mais de uma uma vez desde o dia 14 de março (o dia em que eu oficialmente comecei a ficar em casa isolada) eu fiquei acordada até mais tarde ou acordei de madrugada. Em ambas as ocasiões, foi pra grandes acontecimentos do k-pop como estreias de MVs e lives, e isso ainda vai acontecer mais algumas vezes até o final desse meu isolamento (que não tem data para terminar).

Algumas vezes eu mesma me peguei pensando “como é bom ser adolescente” enquanto rolava minha timeline em busca de mais uma fanfic ou comprava mais um item de merchandising de banda coreana ou compartilhava mais uma foto-conceito de algum comeback que eu estou esperando impacientemente, mas a verdade é que bom mesmo é poder viver isso aos meus 27 anos.

Em um ano em que pouquíssimas coisas foram dignas de comemoração, e em que a saúde mental de quem tá em casa há 8 meses está bem fragilizada, eu por muitas vezes me peguei agradecendo aos meus “grupos-conforto” de k-pop e pensando que fazia muito tempo que eu não me sentia genuinamente feliz e empolgada com alguma coisa, qualquer coisa. Ser uma fangirl extremamente dedicada me devolveu a felicidade e o brilho no olhar que um mundo pandêmico me tirou –e me deu oportunidade de conhecer muitas pessoas.

Graças ao k-pop eu passei a me sentir mais próxima de pessoas com quem eu só tinha uma conversa amigável de Twitter, passei a procurar me informar mais sobre uma cultura que não é a minha, passei a querer aprender todo um novo idioma apenas por lazer, e passei a seguir nas redes sociais profissionais mulheres em quem eu agora me inspiro e às vezes troco uma mensagem ou outra de motivação.

Tudo isso enquanto fico maravilhada com as iniciativas de perfis que incentivam apoio a ONGs e à grandes causas, e enquanto bolo meus próprios projetos pessoais baseados nesse meu gosto recém-adquirido (e MUITO bem-vindo!).

Enquanto eu olho pra tudo isso, eu vejo, sim, uma versão minha adolescente ainda de cabelo alisado e que fazia essas mesmas coisas: ficava empolgada pra fanfics, pirava com fotos, se emocionava com entrevistas e esperava a estreia de um clipe (mas provavelmente na TV, e não numa premiere programada no YouTube), mas uma versão melhorada, uma versão de mim que agora pode aplicar toda essa energia, inspiração e paixão para fazer coisas, para ter companhia em um momento difícil com o de agora, e para simplesmente só se divertir e se alienar por algum tempo.

A gente cresce (especialmente nós que cumprimos o estereótipo feminino) sabendo que certas coisas são só pra meninas adolescentes, e devem ficar dentro daquela faixa etária, qualquer coisa fora disso já é uma vergonha, um guilty pleasure, mas em 2020 ser uma adolescente fangirl, de fato, me salvou de viver um ano completamente apática.

Ser uma fangirl em pleno 2020 e aos 27 anos me ajudou a ler mais o momento, a contar melhores histórias e a entender melhor o que me faz genuinamente feliz.

E eu estou falando muito sério.

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27 anos. Brasileira. Criadora de conteúdo, ilustradora e blogueira de comportamento e de esporte. http://linktr.ee/ddsaldanha

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Duds Saldanha

27 anos. Brasileira. Criadora de conteúdo, ilustradora e blogueira de comportamento e de esporte. http://linktr.ee/ddsaldanha