Evento esportivo é lugar de política SIM.

Inclusive talvez seja mais do que em qualquer outro lugar.

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Não é segredo pra ninguém que me conhece o quanto eu costumo atrelar discursos políticos ao futebol que assisto sempre que possível. Eu fiz da minha missão na terra deixar bem explícito todo o contexto histórico por trás de uma partida como Holanda x Espanha na última Copa do Mundo.

Resolvi então pegar o último texto do apresentador Tiago Leifert em sua coluna pra GQ (publicado em 26/02/18) entitulado "Evento esportivo não é lugar de manifestação política" e discutí-lo aqui nesse espaço que não é nem 1% do tamanho da GQ mas é meu e eu cuido com bastante carinho –e sensatez.

Tiago começa o texto falando algo com o qual eu concordo: "Não vejo necessidade, não acho que patriotismo funciona enfiando um hino goela abaixo de torcedores. Me incomoda também saber que o hino é uma lei estadual, uma interferência da Assembleia Legislativa no rito esportivo." Como amante do Hino Nacional e sua letra, eu gosto. Mas não deveria ser uma obrigação, e sim, um precedente, algo feito por orgulho e não por cartela. Porém seguimos.

O próximo parágrafo porém "dá início aos trabalhos" (para usar o linguajar do apresentador). "Quando política e esporte se misturam dá ruim. Vou poupá-los dos detalhes, mas basta olhar nossos últimos grandes eventos para entender que essas duas substâncias não devem ser consumidas ao mesmo tempo." Ele segue e encerra essa parte do texto com: "Olhando por todos os lados, não vejo motivos para politizar o esporte."

Só pode ser piada.

O primeiro exemplo que ele cita são nossos "últimos grandes eventos" e caso não tenha ficado claro ele está falando de Copa do Mundo FIFA 2014 e Jogos Olímpicos Rio-2016. Só pra lembrar de alguns pequenos atos políticos que aconteceram nesses dois grandes eventos caso tenha fugido à memória do Tiago:

  • O caso Ryan Lochte, em 2016, que fez um bafafá falso falando que tinha sido assaltado à mão armada. E mesmo com a falsa acusação, não dá pra dizer que as Olimpíadas foram tranquilas: 19 pessoas morreram e 32 ficaram feridas, apesar dos 60 mil agentes policiais disponibilizados pelo Governo. Governo, né? Política.
  • As obras públicas de transporte tanto para o evento do Rio (que prometiam fácil acesso à Cidade Olímpica) quanto para os eventos nas cidades que sediaram jogos da Copa do Mundo (como São Paulo, por exemplo), foram palco de mil e um escândalos. Vale lembrar do Cartel Tucano em São Paulo. Tucanos, né? Política.
  • Os "adesivos meramente decorativos" que escondiam favelas do Rio para que as pessoas não fossem "incomodadas" com aquela vista. E quando questionado sobre isso, o secretário Antonio Pedro Figueira de Mello ainda teve coragem de dizer que "as favelas do Rio sempre são vistas por quem chega à cidade e já são tratadas por nós como ativo turístico." Qualquer semelhança com zoológico é mera coincidência.

Entre junho de 2014 e agosto de 2016, período em que a Copa do Mundo e as Olimpíadas efetivamente aconteceram (sem contar os preparativos, claro), o Brasil esteve mergulhado em uma das suas maiores crises políticas onde nós não só perdemos uma presidente eleita democraticamente no final de 2014 como vimos a justiça abrir investigação atrás de investigação de todos os políticos possíveis que passaram pelo planalto desde então.

O argumento "política e o esporte não devem se misturar" é estúpido pelo simples fato de que pessoas são políticas o tempo todo. Por que então um lugar CHEIO DE PESSOAS não deveria ser? Ter os olhos do mundo todo olhando para o Brasil fez com que manifestações acontecessem cada vez mais e o povo expressasse sua opinião das mais diversas formas, para todo mundo ouvir.

Mas eu não preciso falar isso pra ninguém, essas informações estão na internet pra quem quiser ver. Vocês viveram isso. Nós vivemos isso. E se você acha que não aconteceu, eu te explico em dois motivos simples:

  1. A maioria das manifestações em estádios não é televisionada. E você não precisa acreditar em mim, é só jogar as palavras "manifestação" + "política" + "estádio" que você vai achar notícias como essa, que inclusive diz que o Superior Tribunal Federal considera ilegais manifestações políticas em estádios. Se incomoda o suficiente pra ser ilegal, é porque não aconteceu uma ou duas vezes.
  2. Esmagadora maioria de quem frequenta estádio infelizmente ainda é elitizada ao ponto de não se sentir minimamente afetada por ondas de mudança política. Isso é um assunto pra outra história mas é parte do problema de não vermos mais manifestações políticas nas arquibancadas.

Os exemplos porém não param no Brasil.

Apenas na edição de 2017 (não estamos contando as outras para efeito de rapidez de informação mesmo), a UEFA Champions League foi palco de inúmeras manifestações políticas por parte das torcidas.

Para citar uma, a partida entre Apoel e Tottenham viu em sua torcida cartazes de "Devolvam-nos os mármores", uma alusão às peças gregas que estão expostas no Museu Britânico e foram roubadas pelos ingleses.

Outro exemplo é a torcida do Barcelona que sempre carrega consigo placas de "libertem a Catalunha" em todos os jogos, e as mostra sem medo. E mesmo quando a situação na Catalunha em outubro estava insustentável a ponto do clube fechar as portas em protesto para jogar uma partida sem torcida alguma, vemos que a política não se restringe às torcidas. Na partida do Barcelona contra o Las Palmas no dia 1 de outubro, o time adversário entrou com um uniforme especial que carregava a bandeira espanhola, claro protesto a favor da coroa e contra a Catalunha.

É bastante comum que a essa altura do texto você esteja dizendo que é natural essas manifestações políticas estarem acontecendo agora, já que "o futebol ficou chato e não se pode falar mais nada."

Esses próximos itens então são pra você:

  • De 1982 a 1984 o Corinthians viveu um período chamado de Democracia Corinthiana. A DC foi um movimento liderado por jogadores incrivelmente politizados como Sócrates e Casagrande que é considerado o maior movimento ideológico do futebol brasileiro e que consistiu em um período de autogestão, onde os funcionários todos (desde jogadores até funcionários pequenos da comissão técnica) tinham peso igual em todas as decisões do clube como demissões, contratações e até a escalação.
  • Em 1936, nos Jogos Olímpicos de Berlim, o mundo estava de olho na Alemanha nazista. Em meio à ideia dos nazistas de provar para o mundo que os alemães puros eram melhores em tudo, os 4 ouros do americano negro Jesse Owens foi uma afronta extremamente política.
  • 1968 foi um dos anos que mais viu manifestações políticas (até mesmo no Brasil, visto que estávamos em um período de ditadura), e durante a cerimônia de entrega das medalhas, os americanos Tommie Smith e John Carlos levantaram as mãos com punhos cerrados em apoio ao movimento Panteras Negras, grupo que luta pelos direitos civis de negros nos Estados Unidos.
  • Falando em Panteras Negras… Por mais controversa que possa ser a motivação de Beyoncé para o ativismo (e isso é uma outra história), seu show no Super Bowl em 2016 foi bem claro. Na apresentação, suas dançarinas também fizeram homenagem a esse movimento e ao Black Lives Matter.
  • Nos Jogos Olímpicos de Munique, oito palestinos sequestraram e mataram onze atletas israelenses no que ficou conhecido como o Massacre de Munique. Na época, os palestinos reinvidicavam a libertação de 200 dos seus que estavam sob prisão de Israel.
  • Em 1920, durante a Guerra de Independência da Irlanda, em um dia conhecido em Dublin como Domhnach na Fola (ou Domingo Sangrento), 31 pessoas foram mortas dentro do Croke Park, estádio irlandês, durante uma partida de futebol gaélico. O ataque foi uma resposta do grupo britânico Black and Tans a uma manobra irlandesa para assassinar um grupo de agentes ligados ao serviço de inteligência britânico. No dia, os britânicos entraram no estádio e abriram fogo nas pessoas na arquibancada.
  • Em 2016, as torcidas dos times paulistas carregavam faixas nos jogos que diziam "Quem vai punir o ladrão da merenda?" As faixas foram vistas em jogos do Corinthians, do Santos e da Juventus. No dia 2 de março, dois diretores da Gaviões da Fiel sofreram um atentado após reunião no Ministério Público, e descartaram a hipótese de rivalidade. Segundo os dois, os ataques foram de cunho político. Há muito tempo as torcidas em São Paulo se unem para protestar contra o governo e o modo como o futebol é organizado no estado.

Olhar para todos esses acontecimentos e não enxergar a política por trás deles não é apenas impossível… é desonesto.

E se vemos cada vez mais notícias sobre esse tipo de manifestação seja por parte de torcida, seja por parte de jogadores (como o exemplo que Tiago mesmo usou em seu texto do jogador Colin Kaepernick que iniciou o movimento de se ajoelhar durante o hino nacional americano como protesto), é porque existe toda uma herança política que mostra a força que o esporte tem de unir pessoas não apenas por um time, mas por uma causa.

O argumento de Leifert de que os torcedores de todos os times andam por todos os espectros políticos é válido e eu concordo em partes, mas isso não os torna menos políticos, e sim, de políticas diferentes. Ainda mais quando, no texto, ele trata os jogadores como peões de seus times: "Não acho justo ele hackear esse momento, pelo qual está sendo pago, para levar adiante causas pessoais. É para isso que existe a rede social: ali, o jogador faz o que quiser. No campo? Ele está para entreter e representar até mesmo os torcedores que votam e pensam diferente." Isso não faz o menor sentido e desumaniza o jogador de várias formas diferentes.

O apresentador encerra o texto afirmando que quem vai ao estádio procura um desligamento da realidade e por isso não deve ser exposto a discussões políticas, mas eu naturalmente discordo.

Em 2018, a pessoa que não quer ser exposta a discussões políticas especialmente no Brasil infelizmente está vivendo no lugar errado—é claro que essa exposição deve ser feita em doses confortáveis já que ninguém tem saúde mental pra lidar com isso em todos os momentos do dia. É um alívio, porém, que em um esporte que é tão tratado como centro de alienação e pão e circo, questões políticas estejam sendo levantadas.

Às torcidas e aos jogadores: por favor, incomodem mais!

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27 anos. Brasileira. Criadora de conteúdo, ilustradora e blogueira de comportamento e de esporte. http://linktr.ee/ddsaldanha

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