O futebol é machista e homofóbico. E o que você faz?

Só não pode desistir dele.

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Photo by Mitch Rosen on Unsplash

Vocês que me seguem há algum tempo nas redes sociais sabem que eu amo o desporto conhecido como chutebolas, ou futebol. E, se tá chegando agora na minha vida, seja bem-vindo, toma um café, e eu sou torcedora do Santos Futebol Clube. Escrevo sobre esporte pra Valkírias e já escrevi pra Revista Capitolina. Acho que tá bem claro então qual é o meu lado da conversa.

Acho importante começar esse texto logo dizendo que lá no futebol não tá tudo bem. Enquanto a FIFA, que deveria zelar pelo esporte que representa, se mostra cada vez mais como uma disputa pra ver quem é o velho branco mais poderoso, os jogadores por si só fazem o que bem entendem, e eu tô falando das Três Marias da sonegação de impostos: Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo. Mas não é sobre isso que eu queria falar hoje.

Eu queria falar do lado de cá.

Do lado de cá também não tá nada bem. Isso porque, enquanto os velhos brancos se estapeiam entre si, e as Três Marias se estapeiam com a justiça, a entidade torcida™ se estapeia enquanto sociedade. Veja bem, não é de hoje que a gente vê na mídia casos e casos de racismo (como a vez que jogaram uma banana no Daniel Alves, lembra?), homofobia (a torcida do São Paulo conhece muito bem essa) e machismo (um salve pra todas as colegas de profissão mulheres do jornalismo esportivo e a famigerada apresentação da camiseta do Atlético Mineiro em 2016), às vezes todos eles num mesmo jogo.

E é aí que o assunto fica difícil.

O futebol é um reflexo natural da sociedade, e talvez seja o mais perfeito. Existe inclusive um podcast inteiro dedicado a relacionar geografia política de vários países com futebol. Eu digo “talvez” porque eu não sou nenhuma socióloga então não estou em posição de afirmar, mas veja bem, se o torcedor de qualquer time que seja abre a boca pra xingar o juiz de bichinha e falar que lugar de mulher é em casa fazendo comida, é importante entender que ele faz isso aonde quer que seja. Não existe uma chave mágica que faz com que ele fique babaca no momento que cruza a linha do estádio. O problema é algo que vem de fora pra dentro, e não o contrário. Isso não é uma justificativa, é um fato. É claro que não dá pra fechar os olhos pra coisas como comportamento de massa, que indicam que coisas que você ouve repetido por uma galera pode ficar em você, mas na grande maioria dos casos, não é isso que acontece.

Se você, enquanto usuário do Facebook, por exemplo, consegue discutir os problemas e ainda assim existir dentro de uma bolha, eu, dentro do futebol, também consigo. Ou vocês acham que eu gosto de estar no meio de caras suados intolerantes que acham que eu não devia estar ali? Não, meus queridos.

Eu vou no estádio com a minha família. Eu me cerco de amigos que têm a mesma visão que eu do futebol. Eu compartilho e consumo conteúdo de fontes LGBTQ+, que falam comigo.

Observem vocês que enquanto mulher, negra e inserida na comunidade LGBT, eu teria todos os motivos para detestar o futebol e tudo que ele representa, mas ainda assim, quando a amiga Cristina fez um post lá na outra rede social perguntando o que era amor, eu respondi que amor era o que eu sentia quando meu time fazia gol.

Lembra quando eu disse que o futebol era um reflexo natural da sociedade? Então, isso quer dizer que ela muda. E graças a Mama Ru ela muda.

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Isso porque, da onde eu vejo, tá tudo bem mas tá esquisito. É muito fácil falar quando eu tô muito bem inserida no meio, obrigada, então vou contar pra vocês algumas coisas que aconteceram recentemente e que talvez vocês não tenham acesso:

Isso quer dizer que está tudo bem? Como eu já disse: não, não está tudo bem. Isso porque a CBF voltou a ser multada por homofobia ainda esse ano, e a briga entre as torcidas do Atlético-MG e do Cruzeiro segue apelando para a homofobia. As jornalistas seguem sendo xingadas no estádio.

Mas então o que esse monte de informação quer dizer? Primeiro que eu preciso começar a prestar mais atenção nas torcidas de outros estados se eu quiser mesmo trabalhar com futebol. Segundo que estamos muito atrasados no que diz respeito ao combate à homofobia e ao machismo dentro e fora de campo. Terceiro que: porra, por mais devagar que esteja acontecendo essa mudança, ela está acontecendo, não está? E dá pra ignorar isso?

E por mais que eu tenha escrito esse texto para defender o esporte que eu tanto amo e que faz parte de todos os dias da minha vida, ele é na verdade direcionado a você militante que talvez esteja lendo isso. Sim, você mesmo, que diz que futebol é pão, circo e alienação.

Porque quando Manchester foi atacada mais cedo esse ano, os City e os United que são inimigos mortais se uniram em respeito às vítimas. Porque para o pequeno Bradley, o futebol era uma forma de esquecer da sua doença. Porque para algumas crianças, o futebol às vezes é tudo que sobra.

Então é com muito pesar no coração que eu digo: o futebol não vai acabar só porque você não gosta.

Eu não tô de forma alguma falando para você ser conivente, mas imagina que louco se cada pessoa que pontua todos os problemas de dentro da torcida se juntasse a nós e tentasse mudar as coisas de dentro pra fora? Por que você não se junta às Valkírias, às Capitolinas, às Dibradoras, às Donas da Bola e planta a sementinha da igualdade dentro das pessoas que estão inseridas no futebol e que podem ativamente mudar isso?

Nadar contra esse mar de ódio no futebol é um exercício diário, e que ainda vai ocupar anos da minha vida, mas como desistir de algo que já me deu e ainda me dá tantas alegrias (e algumas raivas, não vou mentir não)? Que já mudou a vida de muita gente que vivia na miséria? Eu vou dedicar 80% do meu tempo a esse exercício todos os dias pro resto da minha vida, se for preciso, eu vou deitar a cabeça no travesseiro todos os dias sabendo que eu fiz a minha parte para tornar o futebol e sua torcida um lugar menos homofóbico e machista para os meus filhos. O peso dessa omissão eu não carrego. E você? Carrega?

Acredite em mim quando eu digo que, enquanto LGBTQ+ e negro deve ser doloroso prestar atenção nas coisas horríveis que acontecem na torcida. Mas se você olhar para o outro lado, o problema vai continuar existindo. E cada vez menos gente vai nadar contra essa corrente. Não vou negar que às vezes é demais, é exaustivo, dá vontade de desistir. Mas eu não desisto, e você também não deveria.

Afinal, futebol só funciona se todo mundo jogar em sintonia, né?

Written by

27 anos. Brasileira. Criadora de conteúdo, ilustradora e blogueira de comportamento e de esporte. http://linktr.ee/ddsaldanha

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